Maria Teresinha I. Vannucchi
Biografia
Nasci em S.P. e tenho cá comigo, que o passado rege o presente. As lições inspiram as ações e formam o caráter.
Filha de PROFESSORA com letra maiúscula mesmo, que na foto de formatura, vestia paletó e gravata, pois não havia formanda do sexo feminino que galgasse tal posto. Andou por S.P. NA zona rural, alfabetizando crianças e adolescentes até quando foi concursada com louvor e transferida para um grupo escolar na LAPA até a aposentadoria aos 57 anos. Morreu aos 57 anos, aposentada, mas dando aulas particulares para o quinto ano, pois as escolas particulares eram insuficientes no conteúdo e qualidade. Somente os que faziam escola públicas entravam nas boas escolas.
Meu pai, jogador de futebol no tempo que não se ganhava dinheiro com esporte, ao se casarem mudou para S.P., fez um concurso e foi contratado na PREFEITURA de S.P. Alegre e espirituoso, foi quem me salvou na Ditadura de ser presa, grávida da Andrea, ignorando o que agentes do DOPS vieram fazer na casa dele em S.P. e serviu café para os agentes, que sequer me viram deitada em repouso absoluto, por ordem médica. Parece mentira, mas aconteceu... e lá se foi a perua Veraneio, prender e seviciar. Isto aconteceu quando estava no sexto ano em Botucatu e fazíamos estágios em S.Paulo para complementar a grade curricular, segundo a visão dos mestres e por isso, exigiam formação na prática; não com bonecos e ou desenhos.
RETORNANDO AOS 14 ANOS
Paralelamente, sempre participava do MOVIMENTO ESTUDANTIL. Iniciei no quarto ano no Colégio de Aplicação da USP para garantir o lugar no Cientifico. O prédio era vizinho ao local onde funcionava a Casa da Rússia e aprendi que a esquerda não come criança...
Terminado o cientifico, fiz o cursinho, e entrei em BOTUCATU, não queria ir pois minha mãe havia morrido em 24 de novembro, meu pai telefonou e me orientou para que fosse, depois resolveria, se não gostasse.
Fui e fiquei. Descobri o que é a UNIVERSIDADE e encontrei o que gosto de fazer: estudar, brincar, lutar pelo que avalio como correto, independente do que os outros falem ou pensem.
No primeiro ano fiquei em dependência, estudei nas férias e aprendi que se não gostar do assunto e for necessário, tem que aprender e fim de conversa.
Passei em todas as matérias, e muito bem. No segundo ano avaliei que devia fazer a minha parte e preencher o meu tempo fazendo o que avaliava como justo e necessário e atuando em todos os níveis, mormente na força de um grupo que politizado, percebia que precisaríamos assumir a direção gradativamente.
Organizamos uma chapa; mas perdemos a eleição, por um único voto. No entanto, a greve, buscando plenas condições de estudo, nos levou a assumir a direção do CENTRO ACADEMICO. A chapa concorrente desistiu e com a reorganização, vencemos a eleição. Assumi a PRIMEIRA VICE PRESIDENCIA, que era a PRESIDENCIA DA MEDICINA. Esta é uma história contada em outros dois livros distintos.
Fomos convocados, como representante do Corpo Discente, para elaboração dos ESTATUTOS DOS CONSELHOS DELIBERATIVOS DOS QUATRO CURSOS (Medicina, Veterinária, Biologia e Agronomia). A formação da metodologia de organização seria centrada nos REGULAMENTOS com representação docente e discente.
Terminei a RESIDÊNCIA MÉDICA e fui convidada para participar, como docente, do DEPARTAMENTO DE MEDICINA SOCIAL E SAÚDE PÚBLICA, em Botucatu. Toda a documentação entregue, montamos o CENTRO DE SAÚDE ESCOLA, na cidade de BOTUCATU e outro CENTRO, na FAZENDA LAJEADO, pertencente a FACULDADE DE AGRONOMIA.
Assim iniciamos, com a sapiência e experiência da Professora Doutora CECILIA MAGALDI, o primeiro SISTEMA DE SAÚDE PÚBLICA DO BRASIL.
Depois, grávida da segunda filha, fui chamada na Diretoria da FACULDADE DE MEDICINA DE BOTUCATU, e fui comunicada da suspensão da minha Recontratação, que deveria acontecer anualmente, com apresentação de Atestado de Antecedentes. Sabíamos que era irregular, procuramos respaldo no Direito, com Advogado, que nos orientou para que nos calássemos, pois era de direito essa exigência e quaisquer queixas eu seria indiciada como FALSIDADE IDEOLÓGICA.
Hélio deveria fazer PÓS GRADUAÇÃO, assim nos mudamos para RIBEIRÃ0 PRETO. Uma pediatra foi colega de turma do Dr. Pedro Augusto de Azevedo Marques; que havia sido preso durante a DITADURA, nos indicou um advogado que me entregou três ATESTADOS de ANTECEDENTES.
Nos mudamos para RIBEIRÁO PRETO.
Compareci no SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE - SUDS, me apresentando para trabalhar e, no dia seguinte uma ambulância, foi a minha casa, solicitando que comparecesse no quinto andar para iniciar o trabalho Ambulatorial.
Assim foi. Após alguns poucos anos participei de dois CONCURSOS PÚBLICOS, sendo aprovada em PRIMEIRO LUGAR, e me aposentei, fazendo ainda dois horários.
Atendia na mesma sala que o DR. NOGUEIRA, futuro PREFEITO da nossa cidade. Fiz amigos incontáveis em Ribeirão Preto, nos quatro Hospitais que trabalhei. Nenhuma rusga, nenhuma discussão, estava em casa.
Fui durante 20 meses estagiar no SAN FRANCISCO GENERAL HOSPITAL, CALIFORNIA, USA. Fizemos uma pesquisa em HEMODIÁLISE e ACIDO FÓLICO. Aprendi DIÁLISE PERITONEAL, que institui em RIBEIRAO PRETO e no BRASIL, quando voltamos do estágio de SAN FRANCISCO.
Comparecia aos Congressos de NEFROLOGIA na EUROPA, como sócia da SOCIEDADE EUROPEIA DE NEFROLOGIA, por mais de 15 anos.
ATIVIDADES EXTRA CURRICULARES:
Eleita VICE PRESIDENTE DO CENTRO MÉDICO DE RIBEIRÃO PRETO, UMA GESTÃO. (primeira representante do sexo feminino neste cargo no CENTRO MÉDICO) tendo assumido a presidência e atuamos no sentido de negar a chamada MEDICINA DE GRUPO, como exploração do trabalho médico; instituímos junto a UNIMED a adesão do médico ao sistema UNIMED, com pagamento através do Centro Médico. Além disso, proferi CONFERENCIAS na FMRPUSP sobre “Trabalho médico”, “Realidade médica” e “Escolas médicas sem formação profissional de ensino”.
Fui eleita depois, PRESIDENTE DO CENTRO MÉDICO (primeira PRESIDENTE DO SEXO FEMININO). Atividades vivenciadas: Reuniões anuais com calouros da USP, Discussão permanente sobre a Realidade social no BRASIL e reuniões com APM E AMB mensais em S.P. Finalmente fui eleita como MEMBRO DO CONSELHO DELIBERATIVO CENTRO MÉDICO até 2020.
O CORPO DOCENTE da FCMBB nos ensinou mais que Medicina: respeito e sobrevivência. DRA DINAH BORGES DE ALMEIDA, Nefrologista pela USP, me orientou que Medicina Pública, com igualdade e prevenção de doenças, seria um sonho, que durante o regime militar não se viveria. Teria que me especializar e estagiei com ela, aprendendo uma medicina viável e de sobrevivência. Durante 10 meses segui a Enfermaria e Ambulatório de NEFROLOGIA. Mas mantendo a visão uniforme da doença, do diagnóstico e do tratamento.
Hélio iniciava a pós graduação em Ribeirão Preto, e eu PRONTA para trabalhar como NEFROLOGISTA.
Iniciei em Ribeirão Preto, sendo apresentada pelo DR. PEDRO DE AZEVEDO MARQUES, no HOSPITAL SÃO FRANCISCO e montamos um grupo de CLÍNICA MÉDICA. Éramos 4 clínicos, com escala de plantão. PEDRO DE AZEVEDO MARQUES, MARTHA MARIA DE MORAES RIBEIRO, MILTON ELMOR FILHO, e EU.
Começamos a fazer DIÁLISE PERITONEAL e após um ano, ganhei uma máquina de hemodiálise importada, de um USINEIRO de RIBEIRÃO PRETO. Assim iniciamos a Hemodiálise em RIBEIRAO PRETO. Após alguns meses, ou anos...adquirimos máquinas e montamos o serviço na BENEFICIENCIA e depois na SANTA CASA.
O HOSPITAL SÃO PAULO iniciou a hemodiálise feita por UROLOGISTA, como no H.C.R.P. A Dra. Marisa Azevedo Marques a nefrologista do HC assumiu que HEMODIÁLISE era uma função clínica, apesar de ser utilizada uma máquina.
O procedimento se estabeleceu e fomos deixando os hospitais firmando a HEMODIÁLISE e assim, montamos a primeira UNIDADE AMBULATORIAL DE HEMODIÁLISE, filiada ao HOSPITAL SÃO FRANCISCO.
Após alguns anos, foi construído um prédio, que foi a primeira unidade de HEMODIÁLISE, PD e Transplante Renal, com doador vivo e cadáver.
A UNIDADE, nomeada SENERP, era uma das maiores e completa do país. No entanto, optamos por um serviço de qualidade, menor, sem residência e sem vínculos com a indústria. Por isso retornamos ao HOSPITAL SÃO FRANCISCO. Crescemos em qualidade, conquistamos a “Excelência” em NEFROLOGIA, e em seguida o HOSPITAL SÃO FRANCISCO foi vendido.
Nos retiramos e percebemos que um SERVIÇO de qualidade, mesmo que menor, seria o adequado para quem admira a Medicina como arte e dom, mas principalmente como missão e objetivo de vida. Assim, iniciamos as atividades do VHP - SERVIÇO DE HEMODIÁLISE EM RIBEIRÃO PRETO com o lema: “Trabalhamos com quem pensa e sonha igual, construímos juntos, crescemos juntos e vamos juntos”.
LIVROS PUBLICADOS
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AMANHÃ, HOJE SERÁ ONTEM, Ribeirão Preto, 2020,190 páginas.
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Capítulo: “O passado rege o presente. A lição inspira a ação” in: NÃO NOS CALAMOS, Terra Redonda Ed., São Paulo 2023,280 páginas.

